Raiva


A raiva é uma zoonose (doença transmitida de animais para o homem) causada por um vírus. É uma das doenças mais graves de que há conhecimento. A mortalidade é de quase 100%. Nenhuma outra doença infecciosa tem uma taxa de mortalidade tão elevada. Apesar da vacina, ainda morrem anualmente aproximadamente 70.000 pessoas em todo mundo.


O vírus da raiva é transmitido por mordidas e arranhaduras de mamíferos contaminados. Na maioria dos casos a transmissão ocorre através de cães e gatos. No entanto a transmissão da doença pode ser feita por outros mamíferos tais como:
                                               - Furão (ferrets)     
                                               - Raposas
                                               - Coiotes
                                               - Guaxinins
                                               - Gambás
                                              - Morcegos



            Virologia

O vírus da raiva pertence à família Rhabdoviridae e à subclasse Lyssavirus genus que incluí o virus do morcego Australiano, da Monola e do Duvenhnage.
O vírus Rhabdoviruses é constituido por uma cadeia negativa de ARN (ácidos ribonucleicos) e é bastante estável em ambientes secos.




       Patologia

O vírus da raiva é normalmente transmitido pela saliva aquando da mordida de um animal infectado.
Qualquer mamífero (incluindo o Homem) pode ser infectado pelo vírus da raiva e desenvolver sintomas.
O maior risco de infecção no Homem está associado com o  contacto do Homem com animais domésticos e selvagens, como por exemplo cães, gatos, roedores (ratos, esquilos), vacas, morcegos, raposas, lobos, texugos, macacos e ursos.
Em muitos casos os animais infectados são agressivos e podem mesmo atacar sem serem provocados e demonstram temperamentos pouco vulgares.


Depois da mordida, a saliva com o vírus da raiva deposita-se nos músculos e nos tecidos subcutâneos.
O vírus da raiva mantém-se próximo do local da mordida durante a maior parte do tempo de incubação (entre os 20 até 90 dias). O período de incubação raramente se prolonga por mais de 1 ano (365 dias).
Passado o tempo de incubação, o vírus da raiva atravessa a junção neuromuscular e expande-se pelos axónios do sistema nervoso periférico. 
Quando o vírus da raiva atinge o sistema nervoso central existem alterações inflamatórias no cérebro (encefalites) e na medula óssea (mielites).
O vírus da raiva pode se expandir desde do sistema nervoso central até aos diversos orgãos e infectar também as glândulas salivares.



          Sintomas

A raiva normalmente é mal diagnosticada e por vezes tardiamente identificada em países em desenvolvimento devido ao facto dos médicos não estarem familiarizados com a doença.
Os sintomas mais predominantes são sintomas semelhantes a uma gripe, designadamente dores de cabeça, febre, ansiedade e agitação.
Dores, dormência, comichão são os sintomas localizados no local da mordida permanecendo até ao sarar da ferida devido ao envolvimento das glândulas sensoriais.
Estão descritas duas formas de raiva: encefalite em cerca de 80% dos casos diagnosticados e paralisia nos restantes 20%.


A raiva encefalite promove episódios de geral estado de alerta ou hiperexcitabilidade que podem ocorrer entre intervalos de lucidez, hipersalivação, arrepios, arritmia cardíaca e hiperfobia.



A raiva paralítica é caracterizada por movimentos motores fracos, normalmente iniciados no local da mordida e conduz a paralesia facial bilateral. Pacientes com raiva paralítica tendem a sobreviver mais tempo do que os pacientes com raiva encefalítica.

O vírus da raiva tem tropismo pelo sistema nervoso central, alojando-se frequentemente no cérebro após viajar pelos nervos periféricos.


A encefalite (inflamação do encéfalo) é o resultado final da instalação e multiplicação do vírus no sistema nervoso central. Os sintomas da raiva são os seguintes:



                               - Confusão
                               - Desorientação
                               - Agressividade
                               - Alucinações
                               - Dificuldade de deglutir
                               - Paralisia motora
                               - Espasmos
                               - Salivação excessiva



Uma vez iniciados os sintomas neurológicos, o paciente evolui para o óbito em 99,99% dos casos. Até meados de 2009 só havia relatos de 3 casos onde os pacientes sobreviveram. Esses três casos são fruto de um novo esquema de tratamento descrito pela primeira vez em 2005 que inclui um antiviral, um anestésico e um ansiolítico. Porém , apesar da cura, as sequelas são grandes.



A evolução da raiva pode ser dividida em 4 partes:



1. Incubação - O vírus propaga-se pelos nervos periféricos lentamente. Desde a mordida até ao aparecimento dos sintomas neurológicos costuma haver um intervalo de 1 a 3 meses.



2. Pródromos - São os sintomas não específicos que ocorrem antes da encefalite. Em geral é constituído por dor de cabeça, mal-estar, febre baixa, dor de garganta e vômitos. Pode haver também dormência, dor e comichão no local da mordida ou arranhadura.



3. Encefalite - É o quadro de inflamação do sistema nervoso central já descrito anteriormente.



4.) Coma e óbito - Ocorrem em média 2 semanas após o início dos sintomas.




           Tratamento da raiva


Se por um lado praticamente 100% dos pacientes morrem após o início dos sintomas, por outro, há vacina e tratamento profilático com imunoglobulinas (anticorpos) em caso de exposição ao vírus.

Em caso de mordida por mamífero, deve-se lavar bem a ferida com água e sabão e se encaminhar para uma unidade de saúde.

Se o animal for doméstico é importante verificar se este se encontra vacinado contra a raiva. Nestes animais o período de incubação é de no máximo 10 dias. Este é o período em que o animal deve ser observado. Se após 10 dias ele se mantiver saudável, não há risco de se contrair raiva.

Se o animal for selvagem como um morcego, é importante capturá-lo para que ele possa ser analisado. Se não se puder capturar o animal, o tratamento deve ser feito partindo do princípio que este tenha raiva. O mesmo vale para cães e gatos de rua que consigam fugir.

Mordidas na cabeça e no pescoço são as mais graves por estarem próximas do cérebro. Neste caso o tempo de viagem do vírus até o encéfalo é bem mais curto do que por exemplo, mordidas nas pernas.

A profilaxia pós-exposição (após mordidas por animais suspeitos) deve ser iniciada o mais rápido possível. Existem vários esquemas que envolvem vacinas e imunoglobulinas. Dependendo da gravidade da lesão, o esquema pode incluir até 10 dias seguidos de vacinações diárias mais o administração de imunoglobulina.

É importante também vacinar contra o tétano, caso a última vacinação tenha mais de 10 anos.

Além da raiva e do tétano, mordidas de animais podem originar infecções e o tratamento com antibióticos pode ser necessário.